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Foto arquivo pessoal de Nadine |
Nadine
dividia com outras 1.300 pessoas aquele espaço, um ginásio com dois banheiros
que comportava não mais do que 200. Amontoados em colchões cercados por um
esgoto a céu aberto, eles aguardavam a documentação para viajar a outras partes
do Brasil ou torciam para ser recrutados por empresários que visitavam o local
atrás de trabalhadores braçais.
Franzina e cega, Nadine havia
sido rejeitada em todas as seleções. Sua esperança era arranjar um emprego como
massagista, ofício aprendido anos antes na República Dominicana, para onde
fugiu após o terremoto em 2010 que devastou o Haiti.
Passados cinco anos de nosso
encontro, Nadine, hoje com 35 anos, acaba de se formar na faculdade de Direito,
foi aprovada no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), está a caminho de
se naturalizar brasileira e pretende prestar concurso para juíza.
"Aquele momento no abrigo
foi o segundo terremoto na minha vida", ela recorda em entrevista à BBC
News Brasil. As condições em Brasileia haviam feito o governo do Acre decretar
estado de emergência.
Para estar ali, Nadine havia voado
da República Dominicana para o Equador e, de lá, viajado de ônibus até a
fronteira do Brasil com o Peru - rota percorrida por milhares de estrangeiros
que buscavam o Brasil naqueles anos, quando a economia crescia e o futuro do
país parecia mais promissor.
Ao ingressar no país, porém,
chocou-se com as dificuldades impostas aos recém-chegados.
"Não pensei que situação
fosse ficar tão precária no Acre. Mas aprendi muito ali, me ajudou muito a
crescer."
A sorte da haitiana começou a
mudar quando um funcionário do abrigo lhe pôs em contato com parentes que
viviam no Distrito Federal - onde, segundo ele, Nadine teria mais oportunidades
e poderia até realizar o desejo de cursar uma faculdade.
Chamou a atenção do homem a
facilidade da haitiana com línguas: além do creole e do francês, idiomas
oficiais do Haiti, ela falava espanhol - idioma da República Dominicana - e
tinha boas noções de inglês, que aprendera ao trabalhar num call center.
Ela aceitou a sugestão do
funcionário e partiu para o Distrito Federal atrás da família. Foi tão bem
recebida que logo passou a se referir a seus anfitriões, o casal Carlos e Loide
Wanderley, como pai e mãe.
"Sem eles, teria sido muito
difícil conquistar o que conquistei", afirma.
Os pais biológicos da haitiana
morreram quando ela era menina. Segundo Nadine, seu pai, que era político, foi
assassinado por opositores. A perda fez com que a mãe ficasse deprimida e
morresse menos de um ano depois.
Ela foi criada por um avô, morto
em fevereiro deste ano, e hoje mantém contato com poucos parentes distantes que
moram na República Dominicana.
Sem dinheiro para comer
Foi com o dinheiro que sua mãe
brasileira lhe dava para comer e alugar uma quitinete que Nadine pagou as
primeiras mensalidades do curso de Direito da Faculdade Mauá, na
cidade-satélite de Vicente Pires.
No início, assistiu às aulas sem
que os pais adotivos soubessem, pois não queria que se sentissem pressionados a
ajudá-la com os custos. "Não gosto de pedir, de ser vista como
coitada."
Nadine diz que passou dias sem
comer nada para economizar. Ela só enchia o estômago aos domingos, quando os
pais lhe traziam comida ao buscá-la para o culto no Ministério Grão de
Mostarda, igreja evangélica frequentada pela família e que ela também adotou,
embora seja adventista.
Logo, porém, a direção da
faculdade se impressionou com a história de vida da haitiana e resolveu lhe
oferecer uma bolsa integral, além de um estágio na própria instituição.
Só então ela contou à família
brasileira que estava fazendo o curso - e deixou de passar fome para cobrir as
mensalidades.
Com apenas 15% da visão, Nadine
gravava todas as aulas e estudava com o auxílio de um programa de computador
que lia os livros para ela.
Ela diz que uma única vez sofreu
racismo e xenofobia na faculdade, mas prefere não dar detalhes da ocasião
porque não gosta de se "colocar como vítima" e porque o episódio
teria sido um ponto fora da curva.
"Minha cor é muito bonita,
mas infelizmente há pessoas que acham que negros e brancos são diferentes.
Essas pessoas são doentes, elas é que são as vítimas."
Nadine diz que sua maior
dificuldade no cotidiano era realizar provas, quando dependia de colegas que
lessem as perguntas.
"Se tiver uma vírgula e a
pessoa não der a ênfase certa, você erra a questão." Ela respondia as
provas oralmente ou no computador.
Apesar dos desafios, foi aprovada
em todas as disciplinas e começou a se preparar para o exame da OAB de junho
deste ano.
Como era a primeira vez que faria
o exame, sabia que havia boas chances de ser reprovada. Em 2017, um estudo da
Fundação Getúlio Vargas apontou que 75% dos bacharéis em Direito faziam três
exames até serem aprovados.
"Felizmente a banca me pôs
uma pessoa que lia muito bem - ela tinha paciência, lia e relia quando eu
pedia."
Após a segunda fase, Nadine ficou
tão tensa que adoeceu.
"Estava em casa, com febre,
quando uma amiga me ligou: 'Nadine, cadê o churrasco?' Eu respondi: 'Como
assim, churrasco? Eu nem sei se passei'. E ela: 'Você já passou, acabei de ver
seu nome, parabéns!' Foi um dos melhores dias da minha vida."
Naquela prova, 77,3% dos
candidatos foram reprovados, segundo o blog Exame da Ordem, especializado no
concurso.
Registrada na OAB, Nadine está
apta a exercer a advocacia no Brasil. Seus próximos objetivos são trabalhar num
escritório de direito tributário e se naturalizar brasileira - direito
concedido a estrangeiros que vivam no país há pelo menos quatro anos, falem
português e não tenham condenações penais.
As metas indicam um desvio nos
planos que Nadine tinha logo após entrar na faculdade de Direito.
Em 2015, quando voltamos a
conversar para uma nova reportagem à BBC News Brasil, Nadine me disse que
pretendia se tornar diplomata.
Hoje ela diz que a situação no
país natal piorou tanto que perdeu a vontade de voltar. Em 2017, uma missão
militar da ONU no Haiti (Minustah) chefiada pelo Brasil foi encerrada após
vigorar por 13 anos.
"Mesmo na época da Minustah,
os bandidos mandavam", diz Nadine. "Agora é ainda pior, e os bandidos
estão mais armados que a polícia."
Os planos de se naturalizar
brasileira e de trabalhar como advogada são condições para que ela possa alçar
voos ainda mais altos.
Daqui a alguns anos, Nadine quer
prestar concurso para a Advogacia-Geral da União (AGU), onde espera adquirir a
experiência necessária para seu objetivo maior: tornar-se juíza.
Ela diz ter como exemplo na
carreira o ex-juiz - e futuro ministro da Justiça - Sérgio Moro, que julgou boa
parte das ações da Operação Lava Jato na primeira instância.
"Quando você é juiz, você
não conseque satisfazer todos, mas tem de ter coragem para encarar. Sérgio Moro
tem coragem", opina.
Sobre a vitória de Jair
Bolsonaro, prefere não opinar.
"Não tenho preferências
políticas. Se o Bolsonaro fizer o Brasil crescer, para mim será bom."
Nadine diz ter sido pega de
surpresa pela crise econômica em que o Brasil mergulhou poucos anos após sua
chegada. Ela conta que chegou a questionar a decisão de se mudar para o país.
"Acho que eu teria mais
oportunidades se tivesse migrado para os Estados Unidos ou para o Canadá, mas
aqui eu tenho amizades, aqui eu ganhei uma família. E isso vale mais do que
qualquer coisa."
Matéria por João Fellet BBC BRASIL